Linguagens de computador são o idioma do futuro
Saber a linguagem de códigos de computador é para muitos jovens igual ao
inglês: o segundo idioma que faz a diferença na vida
Helena Borges
RUMO AO MUNDIAL
- O paulistano Mateus Bezrutchka, 17 anos, vive a expectativa de fazer sua
primeira viagem ao exterior — e justo para o outro lado do mundo. Em julho, vai
representar o Brasil na Olimpíada Internacional de Informática, em Taiwan, onde
medirá forças com prodígios da programação de outros noventa países. Para estar
em plena forma, fez um curso intensivo na Unicamp e passa pelo menos duas horas
por dia se exercitando em casa. “Achava as aulas de matemática fáceis demais,
por isso fui buscar desafios maiores fora da escola. Aí encontrei a minha
turma”, diz. (Montagem com fotos de Lailson
Santos)
Sem que mesmo os
pais mais atentos percebam, os jovens estão usando um novo idioma para se
comunicar intensamente — com os computadores. Teclar, dar um clique no mouse,
mover o cursor na tela sensível ao toque são maneiras de interagir com os
computadores. Comunicar-se com eles é outra coisa. Isso exige o domínio de
linguagens de programação. Para o resto de nós as frases nesses idiomas são
apenas impenetráveis conjuntos de sinais matemáticos e de palavras em inglês.
Combinando habilmente essas letras, números e símbolos, o programador dita
passo a passo ordens complexas às camadas profundas das unidades de
processamento dos computadores. Não confundir com os comandos de abrir ou
fechar programas, copiar ou apagar textos, clarear fotos, receber ou enviar
mensagens. Essas interações, que de tão simples parecem indistintas da mágica,
só são possíveis porque, antes, os programadores ensinaram ao computador a
“receita” que ele deve executar quando recebe um determinado comando.
Educação
11/04/2014 - 14:11
Ensino fundamental
Apenas 32,8% dos professores têm formação específica
Número se refere a docentes do ensino fundamental. No ensino médio a
porcentagem sobe um pouco, mas mesmo assim não passa dos 48,3%
Escola Municipal de
Ensino Fundamental Deputado Rogê Ferreira, no bairro do Jaraguá, em São Paulo
(SP) (Raquel
Cunha/Folhapress )
Mais um índice negativo
foi divulgado esta semana para constatar as deficiências do ensino brasileiro:
apenas 32,8% dos professores que trabalham nas séries finais do ensino
fundamental (5º ao 9º anos) têm licenciatura na área em que atuam. Os dados são
do Censo Escolar 2013 e foram compilados pela ONG Todos Pela Educação.
A situação, que já é preocupante, fica mais grave na disciplina de artes, que tem apenas 7,7% dos docentes com formação específica. Nas turmas de filosofia, só 10% dos professores tem curso superior na área. A matéria menos prejudicada é a de língua portuguesa, que tem 46,7% dos professores com formação.
A situação, que já é preocupante, fica mais grave na disciplina de artes, que tem apenas 7,7% dos docentes com formação específica. Nas turmas de filosofia, só 10% dos professores tem curso superior na área. A matéria menos prejudicada é a de língua portuguesa, que tem 46,7% dos professores com formação.
DISCIPLINA
(ENSINO FUNDAMENTAL)
|
PORCENTAGEM
DE FORMADOS NA ÁREA EM QUE ATUAM
|
Matemática
|
35,9%
|
Língua Portuguesa
|
46,7%
|
Ciências
|
34,2%
|
História
|
31,6%
|
Geografia
|
28,1%
|
Filosofia
|
10%
|
Artes
|
7,7%
|
Educação Física
|
37,7%
|
Língua Estrangeira
|
37,6%
|
Uma das metas do Plano Nacional de Educação, ainda em discussão na Câmara dos Deputados, prevê que 100% das escolas tenham professores com formação específica em nível superior na área em que atuam em 2022.
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As regiões Norte e Nordeste apresentam as piores taxas: apenas 17,6% e 18,1% dos professores têm curso superior para a disciplina que lecionam, respectivamente.
No ensino médio a porcentagem sobe um pouco, mas não passa dos 48,3%. Nessa etapa de ensino, a disciplina de artes novamente é a mais prejudicada, com 14,9% dos professores formados em alguma licenciatura relacionada às artes, que pode ser educação artística, artes visuais, dança, música ou teatro.
Ainda de acordo com o Censo Escolar, o Brasil tem 458.807 professores sem diploma de ensino superior – 21,9% de um total de 2.095.013 docentes em atividade. Desses, cerca de 2.000 não terminaram sequer o ensino fundamental.
Pesquisa do Pisa comprova que meninas leem
mais, e meninos são melhores em matemática.
Nervosa com matemática. Desde cedo Giovana Ribeiro prefere história
e gramática e quer fazer Direito ou Medicina Foto: Leo Martins / Leo Martins
Dandara
Tinoco - O Globo
RIO - De um lado, meninas com
melhor desempenho em leitura. Do outro, meninos com performance superior em
matemática. O quadro, que muita gente já observou, é comprovado em números numa
recente publicação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) com base em dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos
(Pisa) 2012. Jovens de 15 anos que vivem 65 países participam da análise, e uma
das conclusões é que o hiato se deve menos à capacidade e mais às diferenças de
autoconfiança de meninos e meninas na hora de aprender.
Os dados da publicação “Meninos e
meninas estão igualmente preparados para a vida?” mostram que garotas superam
garotos em leitura numa proporção que equivale a um ano inteiro de escola, em
média. Já os adolescentes do sexo masculino, por sua vez, estão à frente em
matemática cerca de três meses. E 15% dos meninos, mas apenas 11% das meninas,
atingem os níveis mais altos na disciplina. No Brasil, meninos estão 18 pontos
à frente em matemática.
A publicação afirma que “a
confiança de estudantes em suas habilidades e motivações em aprender tem um
papel central em moldar sua performance em assuntos acadêmicos
específicos", acrescentando que a percepção das meninas a respeito do seu
próprio aprendizado em números determina quão bem elas motivam a si próprias.
A avaliação é confirmada por
especialistas em educação, que sustentam: questões culturais são determinantes
no aprendizado.
— Não há nada que comprove
cientificamente que os homens têm mais capacidade nas ciências exatas, mas,
historicamente, é o que vemos. Na minha geração, a mulher era formada para ser
professora — opina Bertha do Valle, professora da Faculdade de Educação da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Para Norma Lúcia de Queiroz, da
Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), a diferença no
aprendizado começa na alfabetização:
— O dado a respeito da leitura é
coerente e pode ser observado no início da escolarização. Num projeto do
Observatório da Educação da UnB, de 20 alunos com dificuldade em alfabetização,
18 são meninos.
Capazes E sem autoconfiança
A publicação da OCDE indica ainda
que muitas meninas escolhem não seguir carreiras de ciência, tecnologia,
engenharia e matemática por não confiarem em suas habilidades na área, “apesar
de terem capacidade e ferramentas para fazer isso”. Apenas 38% das meninas, mas
53% dos meninos, planejam seguir carreira que envolva matemática. Por outro lado,
meninas são representadas em excesso entre estudantes que imaginam trabalhar na
área de saúde e ciências sociais.
É o caso de Giovanna Ribeiro, de
15 anos, aluna do 1º ano do colégio carioca Mopi. Desde pequena, a menina
prefere as lições de história e gramática. Para a vida adulta, planeja uma
carreira em Direito ou Medicina.
— Eu sempre odiei matemática. Não
entra na minha cabeça, fico nervosa na hora de fazer a prova — conta.
Já Luiz Henrique Alves, do 2º ano
do também carioca Pensi, é o clássico caso do menino que tem notas melhores nas
matérias que envolvem cálculos e sonha com uma faculdade de Engenharia.
— Em matemática costumo tirar 9.
Já nas outras matérias, em geral, fico entre 7,5 e 8 — explica o menino, que
frequenta aulas preparatórias para concursos militares, cuja relação é de 20
rapazes para cada 10 garotas em sala.
Para Márcia Malavasi, da
Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), muitas
vezes as escolhas profissionais estão ligadas à crença de que as meninas são
inclinadas “a desenvolver relações interpessoais”:
— Meninas são muito mais
orientadas para carreiras de ciências humanas. Isso tem a ver com o fato de a
sociedade acreditar que elas são mais capazes de fazer doações psicológicas, o
que é uma visão equivocada que vem da história de servidão das mulheres aos
homens.
A professora acrescenta que há
menos mulheres ocupando cargos que exigem o domínio de exatas. E, mesmo quando
elas ocupam essas posições, ganham salários mais baixos.
— Isso ocorre até em países
desenvolvidos. É um percurso social que a humanidade ainda terá de fazer —
afirma.
Esforço coletivo para mudar
Na publicação, a OCDE destaca que
a diferença entre os sexos no desempenho em matemática se manteve estável na
maioria dos países desde 2003, assim como a diferença de gênero na
autoconfiança. Segundo a organização, a redução do hiato de gênero no
desempenho vai exigir, a longo prazo, o esforço de pais, professores e
sociedade para mudar noções estereotipadas.
A curto prazo, pondera a OCDE, pode
ser necessário tornar a matemática mais interessante para meninas,
identificando e eliminando os estereótipos de gênero nos livros didáticos.
Norma Lúcia, da UnB, concorda e
diz que o mesmo pode ser feito em relação ao interesse de meninos pela leitura:
— Nós, professores, precisamos
investigar se as atividades que proporcionamos na escola têm a ver com isso.
Será, por exemplo, que as meninas não se identificam mais com o tipo de
história que costumamos ler em sala de aula? Talvez sejam necessárias práticas
pedagógicas diferentes para meninos e meninas.
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